A carta de Nala:

Eu, Nala, mulher de Alexander, companheira de Lian e Irian, guardiã da cidade e do templo, escrevo à quem os buscam, e ao que anda pela cidade e procura seus caminhos. Pois ví os que por eles andaram, e não achei entendimento em suas cabeças. Insensato é o que busca encontrar o templo sem ter entendimento, pois este usará sua jornada para colher os frutos de sua ignorância, e andará pelos caminhos da paciência, e encontrará o templo de sua preguiça. Mas o que tem entendimento, este fechará o abismo em seu caminho, e voará sobre as águas até seu destino.

Irian teve um sonho durante os dias de sua busca pelo conhecimento. E eis que nenhum dos sábios do oriente o trouxeram conhecimento, nem os cientistas do ocidente o deram explicação. Mas em seu sonho, ele teve uma visão. E ao amanhecer, ele contou seu sonho a Lian:

- Tive esta visão durante a noite. E vi uma cidade em meu sonho, e não havia ninguem na cidade, nem pelas ruas, nem dentro das casas. Então, uma grande criatura como um pássaro voava sobre a cidade. E assistindo a criatura voar, olhei para o lado, e havia um ancião em pé a minha esquerda, que me disse: "Venha, te levarei aos outros.". Segui-o para dentro da cidade, e para dentro do templo no centro da cidade. E lá estavam oito nobres, entre homens e mulheres, cada um de uma região da terra. O primeiro, um curandeiro; e por suas mãos eram curados os enfermos. O segundo vestia-se com uma cabeça de pássaro e reinava sobre seu povo com braço de ferro. O terceiro era uma mulher que abrigava em sua casa os perseguidos como uma ave abriga seus filhotes. O quarto era um artista, que inspirava-se de visões e profecias. O quinto era um pastor de ovelhas. O sexto era um profeta que pregava a longa vida. O sétimo era um guerreiro, e o inimigo não o podia ver. O oitavo era um músico, e sua música invocava a presença dos santos. E havia um lugar vazio no templo, e o ancião que estava comigo sentou-se naquele lugar, e botou seu livro sobre a mesa, e o abriu. E no livro havia o nome dos outros oito nobres. E eram seus nomes: Malialéh para o curandeiro, Ramsés para o que vestia-se com a cabeça de pássaro, Mirian para a mulher, Aihen para o artista, Iamaréu para o pastor, Graham para o profeta, Natahé para o guerreiro, e Datmessis para o músico. E todos deram ouvidos ao ancião com o livro, pois ele era sábio. E o ancião disse a Malialéh: dá a cura aos enfermos. E a Ramsés: dá segurança aos que temem a morte. E a Mirian: leva os aflitos para longe do perigo. E a Aihen: dá inspiração aos que a buscam. E a Iamaréu: ensina a pastorar aos que a tí vem. E a Graham: dê a longa vida aos que te pedirem. E a Natahé: treine os bons guerreiros. E a Datmessis: ensine sua música aos que podem tocar.

- E tendo ouvido isso, os oito nobres esperaram. Mas ninguem havia que guardasse a cidade, e o homem perverso entrou pelos portões, e foi até os nobres, e foi atendido. E chamou ele a seus companheiros, que entraram na cidade, e também foram atendidos. E os homens perversos não permitiam que os homens de bém entrassem na cidade, ou que chegassem ao templo. Então, vi o rio ao redor da cidade se tornar em sangue, e havia ossos pelo chão.

- A grande criatura como um pássaro veio mim, e disse-me: "Vém, te levarei a seu filho.". E meu coração se encheu de alegria, e subí sobre as costas da criatura, e ela me levou a uma estrada de terra, e o disse-me: "Ande por essa estrada, e procure por uma pedra verde.". E eu andava, e a criatura andava ao meu lado, até que encontramos a pedra, ao lado da estrada. E a criatura disse: "Quebra esta pedra com sua mão.". E quebrei-a com minha mão, e água saiu da pedra. E a criatura novamente falou: "Pegue sua espada que foi quebrada e lave-a nesta água.". E eu a peguei da areia que havia do outro lado da estrada, e a lavei na água que saiu da pedra, e a espada foi renovada, e não mais estava quebrada. Então, a criatura abaixou-se para eu subisse em suas costas, e eu subi, e ela me levou devolta a cidade. E a cidade estava em paz, e não mais havia ossos pelo chão, e a água do rio estava limpa. Então a criatura me disse: "Sai da cidade e voltes para onde veio.". E fui-me indo, mas a criatura tomou a espada de minha mão, e voou para o sul com ela.

E eis o entendimento: A cidade estava vazia, e o ancião levou Irian a ter com os oito nobres. O ancião então disse a cada nobre que desse seu talento a quem à ele viesse. E os nobres esperaram alguem vir.

A cidade estava vazia pois ela acabara de ser criada, e ninguem havia andado por seus caminhos. E Irian esteve presente na fundação da cidade, e na reunião dos oito nobres. Cada um dos nobres possui um talento, e eles o dariam gratuitamente a quem à eles viesse. Como, pois, o ancião ordenou que dessem seus talentos a qualquer um que os alcançasse, cada nobre criaria um artefato, e colocaria alí seu talento, e daria a quem à ele viesse.

Sendo assim, Malialéh criou o Scroll da Vida Eterna, Ramsés criou a Faixa do Faraó, Mirian criou as Asas de Mirian, Aihen criou as Tintas de Monet, Iamaréu criou o Cajado do Bom Pastor, Graham criou o Santo Graal, Natahé criou o Anel do Senhor, e Datmessis criou a Harpa dos Santos.

E passou o tempo, e o homem perverso veio a cidade, e veio ter com os nobres. E foi-lhe dado os artefatos, mas ele usou para praticar o mal, e seus companheiros vieram a ter com os nobres, e foi-lhes dado os artefatos, e também usaram para o mal. E como o homem de bém foi impedido de entrar na cidade, ninguem havia que pudesse lutar contra os homens perversos. Por isso o rio ao redor da cidade se tornou em sangue, e houve ossos espalhados pelo chão.

Quando a criatura levou Irian para ter com seu filho, ela apenas mostrou-lhe o caminho, e deixou que ele o seguisse. Irian buscou pelos caminhos de terra uma pedra verde, que ao ser quebrada derramava sua água. Esta pedra estava fora da cidade, e por caminhos de terra, pois não muitos andavam por eles. E a água desta pedra restaurou o artefato que Irian possuia, a espada, que se chamava a Lâmina dos Séculos. A inscrição na espada dizia: "ter centum", que lê-se "três séculos". A parte nova e polida da espada representa o futuro. Estava polida e não possuia arranhões, e podia-se ver o próprio reflexo pelo metal, pois foi feita pela nova ciência. A parte velha e enferrujada da espada representava o passado. Podia-se ver os arranhões da pedra que afiou o metal pois foi feita pela ciência antiga. Três séculos, pois, para que ninguem a usasse para interferir com sua própria vida, pois a vida do homem se limita a 120 anos.

A cidade representa o caminho até os nobres e à obtenção dos artefatos. Sendo, pois, este caminho é o caminho de quem busca os artefatos. E chegando ao templo, ganha-se um novo artefato. Mas para restaurar um artefato já existente, deve-se desviar da cidade, e não chegar ao templo, mas ir pelas estradas de chão em busca da pedra verde, para que lave o artefato com sua água.

A Lâmida dos Séculos, no entanto, foi dada a Irian pela criatura semelhante a um pássaro. Pois a reunião dos oito nobres já havia acontecido quando Irian teve a visão, mas a criatura podia voar pelo tempo e levar Irian à fundação da cidade. E este era seu talento, o talento da criatura. E criou seu artefato, a Lâmina dos Séculos. E quem fosse ferido pela lâmina seria enviado tresentos anos no passado ou no futuro.

A pedra que Irian encontrou na beira do mar não foi posta pelos guardiões; pois Irian a encontrou muito antes do mais longe que eles foram no passado com a espada. E a pedra possuia inscrições em uma língua que Irian e Lian não entendiam, nem os sábios da cidade, nem os sábios do oriente. Como, pois, Nala e Alexander também viveram na cidade de Irian e Lian, não podiam aprender aquela língua. Sendo assim, alguem além dos guardiões gravou as inscrições sobre aquela pedra. A espada foi criada pela criatura semelhante a um pássaro, que voava sobre a cidade no momento que Irian entrou pela porta. E a porta era a pedra que havia encontrado na beira do mar. E enquanto Irian observava a criatura voar, o ancião veio ao seu lado à caminho do templo, e o chamou. Pois, o ancião também estava fora da cidade, e acabara de chegar, mas os outros oito nobres já estavam no templo. O ancião estava fora pois foi ele quem escreveu as inscrições sobre a pedra, e a deixou na beira do mar.

O som dos passos e dos soldados marchando que atraiu Irian à pedra era o som da última batalha, pois ouvia-se o som dos metais de suas armaduras. Nas batalhas anteriores, o inimigo veio com armaduras de couro, pois a caminhada até a cidade era longa, e as armaduras de metal eram pesadas. A criatura semelhante a um pássaro fez-se ouvir o som da última batalha pois ela podia voar pelo tempo e fazer com que Irian o ouvisse. E quando Irian foi à escuridão em direção ao som e Lian ficou para tráz em sua casa, Irian ouviu o progresso da batalha, e o som da destruição do exército inimigo. Assim, pois, Irian adquiriu conhecimento, e sabia o que fazer.

Já os nobres, eles viveram sobre a terra mas já eram mortos, e seus espíritos habitavam o templo da cidade. E tinham em seus corações:

Malialéh: possuia os segredos da cura de muitas enfermidades em um pergaminho. E também podia curar a velhice. Sendo assim, seu pergaminho era chamado Scroll da Vida Eterna.

Ramsés: possuia ouro e prata e pedras preciosas, e desejava levar consigo seu tesouro para a outra vida, após morresse. Ele, então, pediu que seus servos que, ao morrer, o cobrissem com faixas, e o deitassem em sua sepultura, e que lá fosse deixado seu tesouro. E por estar envolvido com as faixas, os espíritos da morte não veriam seu corpo morto, e não viriam tomar sua alma; e alí ele habitaria com seu tesouro.

Mirian: abrigava os que eram perseguidos pelos injustos, e pelos homens perversos, e pelo governo regido pelos homens perversos. Todos a viam como uma ave que abriga seus filhotes, e os leva a lugares seguros.

Aihen: um pintor que possuia o dom da visão e da profecia, e em suas visões podia ver o futuro. Ele apreciava as obras de Claude Monet, pintor que viveu entre 1840 e 1926 depois de Cristo.

Iamaréu: um pastor que, ao chegar o leão para devorar seu rebanho, ele não o matava, mas o tornava manço como suas ovelhas.

Graham: um profeta que pregava sobre a longa vida que um cálice sagrado daria a quem dele bebesse. Muitos o ouviram, mas ninguem o seguiu, e o cálice nunca foi bebido.

Natahé: era um guerreiro que andava em secreto, e o inimigo nunca o via. Ao se aproximar do inimigo, ele aparecia em sua frente ja com sua espada em mãos, e não muito o inimigo podia fazer para se defender.

Datmessis: músico que tocava sua harpa, e quem ouvisse sua música ela elevado aos santos em espírito, e os santos ouviam sua música.

E quando Irian retornou a cidade, não havia ossos pelo chão, e a água do rio ao redor da cidade estava limpa. Isso, pois, por que Irian agora tinha sua espada restaurada, e poderia voltar com Lian para ter com Alexander no passado, e contar-lhes de sua visão, para que assumissem o compromisso de guardar a cidade do homem perverso.

Por isso, eu, Nala, junto com Alexander, e Lian, junto com Irian, guardamos o caminho ao templo, mas deixamos as entradas da cidade livres para qualquer um que quiser entrar. Para tal, criamos três selos. Eu e Alexander criamos os selos de pedra, e Lian junto com Irian criaram os selos de fogo. Os selos azuis representam as entradas da cidade. Há três entradas ao ocidente, e três entradas ao oriente. As entradas ao ocidente são os selos de pedra, e levam aos caminhos que eu e Alexander guardamos. As entradas ao oriente são os selos de fogo, que Lian e Irian guardam.

Três vezes fariamos pingar o suor do corpo dos que buscam o templo. A primeira gota de suor viria de encontrar uma entrada para a cidade, pois as mudariamos de lugar de tempos em tempos. Venha, pois, e entre por uma porta. E a porta por onde passares será fechada, e não pode mais ser aberta pela mão do homem. A segunda gota de suor viria da coragem e da paciência, pois o homem perverso é covarde pois aflinge os fracos, e é impaciente pois percorre o caminho facil àos desejos de seu coração. A terceira gota de suor viria do arrependimento, pois todo homem já praticou o mal, e deve ser purificado para ser digno de seguir ao templo.

E entre as gotas de suor, faremos com que vá às terras dos nobres e as visite, e vá ter com suas cidades e com seu povo, para que veja suas raízes, e busque entendimento para seus talentos.

E após a ultima gota, faremos com que vá as cavernas que abrigam as criaturas que se alimentam da morte, e que vivem pelas sombras, e devoram os que por elas passam. Para que veja os frutos da perversidade, e a recompensa dos que habitam na cidade coberta de ossos, e dos que bebem do rio de sangue.

Por fim, o levaremos às criaturas que habitam as cavernas mais profundas, para que sintas medo de suas perversidades, e para que fujas de sua ira.

Então, serás digno de vir ao templo, e de ter com os nobres. E novamente abriremos as portas da cidade, e as mudaremos de lugar. E aos que procuram uma porta, que escolham com sabedoria entre o ocidente e o oriente, que são os selos de pedra e os selos de fogo. Se há muitos pelo ocidente, vá pelo oriente. E se há muitos pelo oriente, venha pelo ocidente. Pois a cada lado há três portas, e apenas dois guardiões, e um templo.

E este é o entendimento. Quem busca o templo, venha a cidade, e entre pela porta. Se entenderes estas palavras, os abismos se fecharão diante de seus pés, e voarás por cima das águas até seu destino.

Fim.

 
 
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